Cartas Finais


 

CONCURSO LITERÁRIO MARACAJÁ - ILHA DO GOVERNADOR - 2008

SEGUNDO LUGAR - CATEGORIA : CONTO

- CARTAS FINAIS -

   Cartas Finais 

      Acordou séria, ríspida, cansada, atarefada. Ela era de pouca vida, não passava nem dos trinta anos de idade. Deixou o apartamento mal alugado de acordo com as dívidas: alto, lento, sujo e atrasado. Escreveu as mesmas cartas antigas, copiou de uma pasta onde guardava recados que o tempo lhe deu por trás dos homens que conhecia. Mas ela nunca foi de se doar com relacionamentos. Era seguramente insegura de si. Entre sofrer apaixonada ou desocupar-se dos poucos afetos recebidos, não queria arriscar tanto; assim como dois sedentos brigados que lutam com a violência pela morte de quem nunca mais irá ganhar a última gota de água que escorre fria na areia de um deserto.

      Ela não era muito de conversar com pessoas, dava-se mal consigo mesma. Estava como um dia sem sol nem chuva: a garota era um como retrato antigo na parede: séria, pensativa, misteriosamente invocada por Deus para ocupar o espaço-existência no mundo.

      Juntou os pedaços de um texto que durou dez dias para ser terminado. Começou dentro de um ônibus, e quase renunciou. Mas, assim que desceu no ponto final para o trabalho, apanhou um guardanapo limpo da mesa vazia de um restaurante e escreveu a primeira intenção de uma palavra. Arrancou uma caneta que nunca deixava de faltar na mochila. Mas que sempre perdia depois de usar. Ela perdia e era perdida logo que chegava a uma rua desconhecida, com a memória voando solta pelos ares. Enfraquecera demais com o tempo, a sede, a fome, o sexo, e com as outras e demais obrigações que a danificam pouco a pouco, dentro de um cérebro que já perdia de tudo. Era muito esquecida das coisas, do tempo, das contas que venciam antes de pagar.

      Não era mais que um simples verso. Mas iria ter continuidade no dia seguinte, foi o que ela prometeu para si mesma, mesmo que sem forças para ouvir a ordem humana de voltar para casa porque do corpo cansado não sobrava energia para repor nem quase um dia inteiro de esforço concentrado para uma frase.

      Saiu de si mesma, parou de viver as coisas num momento, transformara-se, estava novamente reocupada com o dia, e trabalhou o que tinha de ser trabalhado. No horário das seis, despediu-se das tarefas, largou as pendências de ontem na mesa, comeu um salgado de frango com catupiri porque sua fome era urgente, sua língua pedia a entrada de um gosto na boca. Os dentes roçavam por alimento.

      Depois de engolir a mistura gordurosa de massa e recheio, entrou num ônibus e partiu para sempre em busca de outra frase que iria completar sua vida.  Entrou pela terceira vez no apartamento. Largou o peso da bolsa. Voltou para a cama. E pensou mais, teve uma nova idéia, ligou para os amigos, queria ficar feliz pela manhã seguinte. Mas desistiu do convite à noite. Queria invocá-los no dia seguinte, mas desta vez com uma voz lenta e provocadora. E fatal. Então dormiu de olhos abertos, vigilantes, porém cansados de esperar pelo outro dia, mas teria de dormir e acordar logo. Que o outro dia nos venha o mais depressa possível, preciso saber na hora como preparar as visitas, o que vestir, o que arrumar.

      No dia naturalmente combinado, levantou sem pensar e quase caiu no chão, queria salvar o mundo inteiro em um dia. Era exagerada demais, respirava com com força e dificuldade, estava mal descansada de uma noite anterior, esqueceu que tudo vencia naquela naquelas horas, sentiu-se vencida, mas queria agora ser vitoriosa. Não era muito cedo, mas ligou as setes horas para acordar os seus amigos. Era dia de domingo, e muitos queriam e todos sabiam que domingo é dia de horas perdidas.

      Domingo é um dia ocupado com a preguiça dos que nada descansaram a semana inteira, mas ela não queria sofrer por abandonar as horas que poderiam se perder na passagem de um segundo. Estava inquieta, esperançosa, desesperada. Sua existência era controlada com angústia. Nem se vestiu direito, resolveu nem olhar para o espelho como todo mortal habitualmente o faz.

 Escreveu as mesmas cinqüenta e nove cartas que ela pessoalmente enviou sem resposta, para um namorado mudo, distante, antigo, mal colecionado numa foto de três por quatro. Na sexagésima parou e nunca se soube o motivo. Todas elas, brancas e amareladas, escritas de mensagens iguais: as primeiras saíram com mais paciência, letras belas e redondas; as outras estavam tanto ou quase iguais as cartas finais: feias, últimas, fracas, fatais.  

      Releu, revisou com os olhos. Esperou o movimento de alguma palavra. Não lhe aconteceu nada: nem um tremor, riso, gemido. Era hora, mas estava certa de uma coisa: Não me ganhei por inteiro. Faltou uma frase me chamar. Mas tenho pressa de arrumar minhas promessas, meus amigos nem talvez chegarão onde cheguei.

      Uns desligaram o telefone, arrancando o fio pela tomada um segundo após o momento de atender. E ela não conseguiu mais ligar. Outros ouviram, prometeram retornar e confirmar para enganá-la dentro da linha, dizendo que ligariam antes de aparecer. E todos atenderam de vozes roucas, olhos miúdos, bocas abertas e pesadas, bocejando o mau hálito da manhã.

      Terminadas as ligações, voltou para as cartas empilhadas no colo. Que fazer? O que deveria ter sido feito antes.

      Espalhou-as pela casa, esperando que alguém fosse lhe visitar, eram realmente feitas para apavorar o coração de alguém; estava pois, feliz com seu plano, mas também estava rodeada dos seus papéis. Estava presa, triste, só, feliz, angustiada em sua própria armadilha. Todo o esforço de surpreender alguém era vago. Não queria ter visitas. Pensou, mas era tarde demais.

      Desisto-me, vou para a rua. Por hoje não quero nem desejo visitas, quero o sair para a rua que as muitas donas de casa fazem depois de trabalhar de segundo a domingo. E para uma tão atarefada mãe de casa - e assim faço questão de que seja mãe e não apenas dona de casa, pois é das mães de uma mulher formada de afazeres que a casa não pára, está sempre movimentada por contas, cômodos, crianças, quarto, cozinha, águas, lavagens, serviços de louças e passagens entre panos, linhas, cortes, carretéis, sangue, sujeiro, cura, ferida... E etecéteras e tantas e outras mais etecéteras que nem o Deus nosso de cada dia soube contar: e quase mal temos tempo de respirar. Imagine tentar sorver profundamente o ar de quem sopra fundo crise a cuidar de maridos e filhos. Mas ela não beberia da dor nem da alegria de ninguém. Retomou a sua condição desumana e abandonou a sociedade. Era mulher-indivíduo, mesmo que forçada a entrar no mundo por causa de um nascimento não desejado por ninguém. Era acidentalmente nascida como muitos de nós. O mundo a ocupava e ela era povoada de portas, janelas, ruas e riscos.      

      Antes de sair preparou sua última mensagem que a fez conversar consigo mesma: Desisto-me sim, e vou leve e sombria, e para o encontro escuro que marca a claridade final de um dia. E para que então me casar, minha já falecida mãe? Não sei te responder por inteiro, mas o que eu vou te falar possa completar  ou quem sabe até concordar com teu destino. Mas lembro antes de me deixar, você nunca me esqueceu de dizer antes da morte segura e sem pesadelos, o que me dizia todas as horas dos meus treze anos passados.

      "Vai para bem longe, e estude minha filha! Mas estude tudo aquilo que te faça viver." 

      E tens razão minha mãe, vou estudar minha vida aqui por diante, por isso que estou saindo para fora de casa... 

HARPAS

 



Escrito por joao.xis às 02h57
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Para a "Ruiva" Elaine Nascimento:
Não morri

Escuta aqui! Eu não morri!
E quem uma vez no fogo me atirou,
Fique sabendo de uma coisa:
Terei o mesmo destino de Joana D'arc,
Meu coração não queimará jamais.

Volto logo com minhas cinzas
E sujo a terra corrupta onde me pisaram
Com a minha alteridade.
Vão ver que não estou mentindo,
Porque não serei capa de revista
E nem tragédia de noticiário.

Não vou deixar que falem mal de mim
Até porque não nasci para ser assunto de conversa fiada.
Falar demais sobre todo mundo
É pura perda de tempo.

Sou moleque feito, e me respeito,
Se você não me entendeu,
Não tem problema,
Eu grito novamente,
Escuta aqui! Eu não morri!
Escutou bem? Ótimo!

Porque Se meu destino feliz te incomodou,
Azar o teu, quem quer que seja,
sou estrela que nasceu feita para brilhar.
E não abro mão disso.
E nem riso eu dou de brincadeira
Felicidade é coisa muita séria

Não sou sozinho,
Mas sei até onde eu me alcanço.
Só Abro a boca quando tenho fome,
Dinheiro é o que não tem jeito
Vou mesmo é ter que trabalhar.

E vou trabalhando.
Pensando idéias, carregando pesos...
Levanto até saco de cimento nas costas
Mas quero ver alguém me aguentar
Porque quem um dia pensou que eu morri
está redondamente enganado.

Harpas

 



Escrito por joao.xis às 03h33
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Olivelton

Vem lá do Espírio Santo,
Terra sã que tu mesmo desconheces.
De tuas vidas não me contas mais nada
Guarda o passado por dentro
Me diz tua palavra, é agora, um grande momento
Tens no suave coração
A força bruta de um cavaleiro incrível
Andas a pé, não perdes um só pedaço de teu rumo,
Não me deixas um rastro
De tua vitória
Falando de um amor quase vencido.
Corre pelo mundo, procuras teu vão

Deixas teu sentimento no ponto
Aguarda no final da linha.
Dorme acordado à noite
E dá uma meia-volta pelo dia
Para voltar a trabalhar.

João

Escrito por joao.xis às 22h41
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Cordas de Um Violão Errante

João Ximenes



O Mistério que nos Separa


... Tocava harpa, tocava veias, batia o pão, suava em demasia. A mulher, o corpo, o padeiro, a pele. Mas o que há de comum entre eles? É simples. A mulher tocava harpa, o corpo tocava veias, o padeiro batia o pão e a pele suava em demasia. - Escreviam-se assim textos e versos na memória. E o que eram escritos era mais que as lembranças. Os escritos eram a vida se desenvolvendo acima do nada.
Enquanto se criavam palavras, um silêncio azedo e distante caminhou durante o dia fraco, quase sem sol e de pouca luz. Tão fraco e inferior quanto aos que nada vivem para entender. E a luz, mesmo pouca, caminhava pela rua até chegar um quarto onde duas pessoas ainda estavam por surgir, escondidas pelas próprias sombras.
Correndo pelo chão, a alma do vento mantinha o frio da casa, refrescando o calor dos móveis. Em seu poço de profundidade cálida, uma mulher tinha as peles dos dedos frouxas e esticadas, concentradas nas cordas do instrumento triangular e de curvas elegantes, produzindo um tan, tan, tan, pling-pling-pling, tan, tan, tan, pling-pling-pling, que na verdade eram gotas de som caindo sôfregas no quarto cansado e cheio da tarde, corroído pela manhã que vinha chegar.
Teclados de um velho piano abandonado no canto de um cômodo trancado. A madeira podre guardava roupas vulneráveis a insetos. Vermes e parasitas cometiam a fome de roer os armários que sofriam a viver. Móveis que estavam por existir. Existir para o silêncio. Eram escravos nascidos de árvores, feitos de pesos e medidas, a servir de enfeite para as casas, que eram inferiores a si próprios.
E o sangue? Corria solto por dentro dos corpos de dois jovens, cada um contendo o espírito que atirava o desejo de se falar. E as palavras amantes e sublimes voavam entre eles, mas com pouco tempo triste para se dedicarem soltas e naturais onde fosse haver qualquer diálogo.
As canções se partem no ar e toda a freqüência de sons mostra-se presa a uma grande desordem. As horas correm mais que a velocidade da luz e anunciam dois sujeitos frios e em vão se dão os corpos no meio do quarto. Alguém precisa existir antes que a vida se forme leve e delgada como um tecido. Alguém precisa existir antes que o tecido da vida caia por entre agulhas erradas...
O rosto cansado de tanto sorrir, em baixo tom de felicidade, escondendo a expressão do quanto se perdeu nas letras de melodias trágicas. E após o desenvolvimento de cada uma de suas expressões, nasce uma pequena prosa entre eles deixando rastros de falas e silêncios:
- Olhe para esse quarto. E veja o silêncio que nunca esteve perto de você. Minhas canções e letras irão te levar a existir por um momento. Inspirada que eu estou vou recuperando as notas falhas que caíram pelo caminho. Para transformá-las em coisa viva e musical. Agora feche os olhos! Ouça e sinta como posso tocá-lo sem ao menos me afastar e ainda te deixo marcas profundas como se você fosse mais um dos meus desconhecidos que dão aplausos para todos os meus toques. Conforme as cordas forem tocadas, todo e qualquer ou nenhum sofrimento vai estar espalhado pelos ares.

1
O homem obedece. Um misterioso ritmo plangente lutava dentro da intimidade da mulher que tem nas mãos a música que preenche o vazio. Ela puxava leve e lírica o parto de uma corrente de arte sonora com os dedos que se moviam como garras, como se estivessem para beliscar todas as suas cordas em um longo ruído.
Com todos os seus tons, com todos os seus toques ela, a mulher em busca de atingir uma canção, tangendo as cordas longas e desiguais de sua harpa sem emitir um ruído de erros capaz de roer os ouvidos.
Seu rosto macio como um travesseiro de penas revelava uma expressão forte e séria para sentir a canção que pulsava nas veias. De aspecto triste, os olhos fechados enxergavam um nada escuro. Seu grande corpo desenhado em curvas perfeitas pelas linhas do tempo. Era, pois, uma criatura humana e imperfeita que alguém fez sem saber depois como conseguiu criar.
Ao invés de fugir, o silêncio antes azedo deitou-se no ar quente da cama. E caiu de joelhos por presenciar a vida que despertou aqueles seres contidos em seus segredos. Que talvez fossem contar cada um para seu espelho quando voltassem a ficar sozinhos.
- Harpa que toca harpa. Harpa que encanta e provoca vida. Você me faz tremer de um medo saudável, e teu rosto frio tem um peso grande de felicidade. Admiro seu encanto. Tem um jeito forte e incansável de compor melodias.
Sua inteligência era fresca e madura como maças que cresciam nas primeiras estações do ano. Harpa era uma mulher de idéias. E tanto a admiravam que cada vez mais ela sentia-se simples como uma mortal que sabia tocar o âmago do ser humano com simples notas musicais.
- Violão, eu muito não sabia que você gostava tanto de música. Você me parecia um indivíduo contável. Com tantas contas a pagar, reclamando juros e com suas obrigações e prestação de serviços. Agora sei do seu talento dramático de estar e permanecer incontestável.
- Realmente, eu só tinha a cara voltada para o centro e o correto, estive por muito tempo ligado às razões físicas e matemáticas. Eu devia me esquecer o quanto se é obrigado a aprender. E nunca deixar de lembrar que todo homem quando cresce, renasce desnutrido de palavras.
“Existe um mistério que nos separa”, dizia a casa de tão fria e dolorosa, com as cortinas caindo leves pelas paredes. O chão respirava mudo por debaixo do piso. As janelas de vidro queriam que se encerrasse a vida dos ventos, que traziam poeira e arranhavam os rostos transparentes e mal iluminados. Queriam o banho com a água de chuva enquanto olhavam para o hóspede desconhecido e quase o perderam de vista. E que em apenas um segundo – e muitas vezes perder um segundo é uma grande falta - pareceu desagradar toda a casa.
Ele era tão quadrado quanto um soneto de versos parnasianos. O espírito simples era a reprodução pura de um rapaz feito de cicatrizes e cordas de sangue. Era também oco e vazio como madeira sem miolo e casca. Nascido para ser criado, educado para evitar suas intolerâncias, tudo compreender e jamais respeitar os próprios gritos. Seu corpo era de uma formação composta por proporções mal definidas. Tinha instintos que nunca perdiam a fome e o cheiro de um animal. O sangue grosso, duro e doce. Um bicho torto e castrado controlado pelo seu próprio vão com olhos vazios que fotografavam a realidade.

2
Tinha cabelos úmidos, frescos, as mãos largas e suadas. A camisa aberta, desabotoada pela metade, repousada no peito magro escondido por pêlos. O rosto frouxo e caído, sem nenhum disfarce. Sua boca era um mistério, guardava palavras que ele talvez nunca fosse dizer. Entre os dentes e as gengivas, a língua ficava presa ao céu rosado. Os lábios secos como cacos de vidro. E os olhos doíam espetados por agulhas de insônia caindo em pontas, em “tin-tin-lin-tar”.
- Como consegue nunca parar de tocar e me dá essa impressão de que você já está morta! – Mesmo inconstante, ele também tinha escritos guardados na memória e começava a dizê-los em forma de frases, tão bem quanto ela.
- Pois se engana muito, Violão, em acreditar que pareço sem vida só porque eu fiquei séria e de olhos fechados. Não sabe como estou feliz com as notas musicais. Soa para mim própria e berrante a canção que vai saindo meio roída pelos dedos. Faço canções cheias de vigor e vontade.
Bastou-se interromper a conversa para escutar as batidas na porta que soavam como um canto de ansiedade. Harpa agita a sua calma. A carne pálida de susto batendo por dentro. Atrás da janela, as borboletas voavam intensas e curiosas em movimentos cardíacos como se estivessem desesperadas, tentando rodear o quarto e empurrar o vidro para descobrir o falso medo de Harpa. Ainda que fossem frágeis demais para alcançar o fato que tanto queriam ver.
No pensamento de Violão vem caindo o sujeito triste num copo de água, assombrado e coberto por cortinas manchadas de cinzas, desdobrando-se em movimentos, separando o tempo em gotas de segundos, um a um, em queda física, desenhado num papel de retrato três por quatro. Um... Dois... Três...
- O que será?
- Vou olhar quem chega atrás da porta. Quem sabe é alguém tão misterioso, desconhecido da terra onde pisa e cheio de descobertas e fale de um jeito tão próximo como se nós já o tivéssemos encontrado.
- Por que todo esse desejo agora? Não gosto muito de visitas. Não nessa hora, porque preciso que as notas das minhas canções estejam em minha harpa. Eu me sinto silenciosa quando não estou tocando. Essa harpa é meu desejo. Meu desejo é intenso como o simples toque de uma nota.
Nada mais se disse e nada havia entre eles que não fossem os versos, talvez. Cada pergunta feita já era caminho para outra resposta. Nada em nada, e rimam-se os versos.
Atravessou a sala ansioso para correr, mas sem precisar de tanta curiosidade. Girou a maçaneta. A porta aberta e não havia movimento de vidas passeando pela calçada.
Volta ao quarto aborrecido de idéias, sem mais esperanças. Ninguém existia além deles, que pareciam não respirar. E lá fora, poucas ruas se encontravam.
- O que era?
- Era mais nada além de ninguém. E eu aqui reunindo expectativas. Alguém chega e nunca existe. Nada mais que ninguém. Alguém que nunca existe.
- O que você está querendo dizer?
- Ah, já nem sei o que estou dizendo, me perdi no diálogo. Ando eu falando a mais do que posso.

3
- Repetem em você tantas palavras. Parecem pedras duras, sendo esmagadas entre os dentes. Difícil de serem mastigadas. Podem causar dor quando engolidas. Você, meu querido Violão, está mais que um homem entediado. Faça um bom sorriso.

Violão se deixou livre para observá-la, sem dividir novamente o tempo entre a lucidez e a loucura. As lembranças deles se cruzaram com um simples copo branco manchado de café frio, sustentado pela mesa.
Os olhos transparecidos de apelos, uma ferida se beijava à outra, sem saberem a falta de ar que é não saber dizer, essa falta de ar que esmaga os brônquios em agonia. E o desespero escorria solto pela pele com um cheiro forte de ervas frescas.
Preso à uma emoção misteriosa, as interrogações brilham e criam no homem curioso uma divertida insensatez com a mesma satisfação de quem bebe a infelicidade aos goles de um bom vinho. Violão força um riso que não sai da boca.
- Por que esse sorriso tão infeliz?
- Estou pensando. Não que eu esteja em perigo. Mas eu sei. Sei que posso salvar minha própria vida, e nada sei. Você chega e toca e me espreme com sua calma e daí eu fico desmerecido de usar a dor. E estou certo sobre aquele que amar a miséria será capaz de amar o mundo inteiro. Porque miséria é amar aquilo que nunca vai te pertencer, é o que existe em você e nunca deseja alcançar. É beijar a coisa de que se tem mais nojo e assim mesmo gostar.
- Independente do que deseja as palavras chegam a você e tocam em várias melodias. Sábias palavras Violão! Mas às vezes não se encosta demais nos sentimentos... Bom, estou com a vista cansada. Irei tocar mais uma canção como eu se estivesse aqui, pela última vez. E você agora vá e descanse! E amanhã venha me visitar. Eu te espero.
- Adeus!
- Mas por que adeus? Não se diz adeus. Se diz até amanhã.
- Então eu volto. Até outra noite!
A casa se desmanchou pela imensa saudade que sentiria por Violão. Ele, de arquétipo silencioso custava a entender, estava concentrado no que lhe ocorreu. Mas já era momento de ir e escutar o ruído das luzes que balançavam na cidade e passariam a existir conforme seus passos.
Alcançou seu prédio, redescobriu o quarto e atirou seu corpo na cama para receber a sentença de trancar a noite em sonhos e dúvidas. Encerrou o dia com um bocejo tranqüilo e demorado.
Seu bocejo era fruto de uma farta sonolência.

Escrito por joao.xis às 13h14
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De Harpas Para Mônica Novarine:

“Um passo em falso, e a terei explosivamente viva em minhas mãos. Não, livra-te de mim que eu não sei ainda como te agradar. Um agrado exige a força extrema de mim, exige o sentimento em branco da verdade. Leva de minha saudade antiga das coisas um silêncio, deixa ser teu desejo errante na madrugada sem descanso, joelhos dobrados no chão; Diante de ti. Então, tocas-me a mão ferida por que espero sempre você acordar de manhã. Sem sol, nem trevas na cortina pesada do meu quarto sem luz; Porque ainda existe o eu que te chama. Mas que não grita, ele é corajosamente mudo e inconstante, na declaração de prosa puramente confessional. Como prova de minha vida, guarda este segredo que apenas levo contigo, numa caminhada sem horas. Como um relógio que não termina. De um lado para outro, o tempo me separa de você. Mas é na distância de horas que a minha palavra perde o sentido; e tudo isso eu aceitei ao me separar de mim, e por servir teu nome em desejo”.


Escrito por joao.xis às 23h52
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Macabéa

Flor quase viva e torta,
Seca todos os dias, sem demora.
Que nasceu lá no Alagoas.
E veio morar no Rio.
Obrigada pela má fé de sua tia.


Moça feia, Estrela pobre e humilhada.
Que nunca chora e sorri.
Porque é garota suja e perdida na vida,
E nem isso sabe.

Dorme de olhos abertos,
Espera sempre a verdade te ferir.

Forma fria e irregular de existência,
Grande amor em branco,
Grita com força, vai!
Corre de uma vez do mundo,
Quem sabe ainda olham para ti!

O sol espreme a ferida em tua carne,
A Lua desce e te lança no frio,

Boneca inexpressiva,
Criatura não batizada por Deus,
Com má vocação para a leitura e para a escrita.
Coisas sábias e bem ditas não te incomodam.

Pobre coitada da Rua!
Sofre ainda mais. E o sangue escorre
Do teu peito magro
Na hora final
Que o relógio esqueceu de contar.
Pois justo no momento que te vi
O ponteiro quebrou
E você despareceu
Dentro da Rua do Rio.

Harpas


Escrito por joao.xis às 15h50
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Sou o "Mal estar de um Anjo". absolutamente um eu de mim mesmo... Sou corda de harpa, sou estrela escura que brilha no céu claro, a existência livre e pesada que o mundo reconheceu um dia em que tomei a liberdade de viver em busca de um tempo que não me atrasa. Da hora em que meu corpo é humano, e sendo demasiadamente humano assumo meu pecado; assumo a minha solidão que ainda não sei usar. Não procuro inteligência, investigo a vida por trás da palavra, até a morte, sem nenhum medo. Caso não tenha me entendido, livre-se. A explicação imediata das coisas só não basta, não enriquece. Não me avança, nem antige a mim que estou tocar de perto o coração escuro da vida".

João Ximenes



Escrito por joao.xis às 00h58
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Eu sei que a solidão existe. E por acreditar nela eu procuro outra palavra. Não quero mais ler a minha palavra, nem a palavra da bíblia, nem a palavra do professor, nem a palavra de casa. Quero reescrever o que você disse. Mas por enquanto eu não tenho que dizer nada. Deixa a escritora falar por mim. Depois eu a deixo em paz consigo mesma.

" E se me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a me respeitar".

Clarice Lispector

Para Ariane C.



Escrito por joao.xis às 01h52
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Para agradecer o que eu nunca vou esquecer de você: Este poema!

Mares

Afoguei-me no mar de escuridão/ sem saber como fui lá parar// Naveguei nas ondulações selvagens/ E não quis mais sair de lá// Esbarrei no espelho/ Encontrando você ali// Quis entrar, sem ao menos pedir/ Quase invadi, sem se quer insistir// Chorei as lágrimas do não fazer/ E no falar que me calei/ Procurando somente esconder/ Simples palavras que não posso dizer.///
Owen Phillips para Harpas


Escrito por joao.xis às 01h09
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Mudanças

"Sinto o cheiro da madeira forte da porta. Tenho falta do meu antigo quarto. Este lugar onde estou chegando é novo e resultado de uma mudança forçada. As paredes têm o cheiro da tinta fresca, branca e azeda. Elas guardam poucos retratos meus que larguei numa caixa de papelão antes usado para empacotar alimentos. Estou cansado de levar os mesmos livros que leio nas viagens programadas com a urgência de me ver livre de uma situação que me ameaçava de rir enquanto enquanto eu limpava os vidros de uma sala que deixei. A ânsia de me transpor para outro lugar é fraca. O lado avesso de uma transformação me dá raiva. Meus olhos permanecem frios e baixos, sem força de olhar o que realmente mudou na minha vida. É que tenho agora outro espaço para viver, e o que mais? Além do que sei, mais nada! Quero buscar um colchão para dormir que o dia de hoje atravessou meus sonhos de permanecer onde estava, e me deixou com sono. Estou cansado só por saber que tenho hora para chegar em uma casa que não desejo ficar... Mas vou morando aos poucos, como se eu estivesse ainda por lá! Que vou fazer mais? Dormir..."

(João Ximenes Neto)   




Escrito por joao.xis às 13h53
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 (Virgínia Woolf)

 "Agora, perto de uma estranha luz que me deixa ir para onde não quero faltam-me as palavras. Minha boca está seca por que engoli o pó de meu deserto e porque meu deserto era meu corpo preso dentro de um quarto. E para sair preciso entrar. Preciso então me admitir a andar com olhos fechados até que meu desequilíbrio caia e meu corpo se renda espalhado pelo chão, assim como os cabelos grandes, cheios e fartos estejam submersos sobre a água de um rio que ainda não bebi. Então a luz se apaga e faço um sopro no vão para saber se o ar que estou tentando empurrar com os lábios ainda tem força de arrastar poeira para os cantos da face. Estou por aqui, tentando me escolher e seguramente confiante que o desconhecido me vem trazer novas ameaças de vida. E a vida ameaçadora é tão simples que posso chegar ao meu máximo com um pedaço dela. E dela bebi, e meu gole era forte, e tão forte que digo que adoro: Adoro um jeito meu de nunca deixar de sorrir. Adoro um jeito meu de nunca deixar de sorrir para alguém".   

 (J. X. N. - Pois que dedico esta a frase as pessoas que amo e em especial a escritora Virgínia Woolf)



Escrito por joao.xis às 13h52
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Surgimento de uma melodia

 

 Tocam-se as notas, ergue a harpa, grita-me Vida! Anuncie minha chegada ao quarto escuro. Não estou com lembranças boas para escrever, nem más feridas. Sou alguém que retorna para o mesmo lado de onde vim. Venho de uma lenda, viro estrela humana conforme as horas. Meu brilho é sangue, é denso, líquido, escarlate, escorre por dentro. 

Dentro de um dia, com o pó de meus ossos, serão feitas cinzas de anjos que morreram de raiva. E renasceram dentro de uma alegria infernal, que dói e fere, provoca amor e ódio, brinca de viver com o que se prova de azedo ou não de um e outro sentimento que vou escolher para anunciar a vida.   

Uma canção acende o sono, acordo de uma irrealidade, sou sinal de coisa viva e secreta, sou luz, sou gaveta fechada que cobre um livro inteiro de vida, corpo silvestre enchendo o chão.

Não queiram saber o ritmo, a música vem de onde não esperamos. Não tenho mais escolha, as janelas abriram, a porta está desfeita, é hora de voltar a escrever para o futuro, e que meus pedidos sejam atendidos.  

É hora de eu acordar,

Boa Noite a todos!

(João Ximenes)




Escrito por joao.xis às 13h51
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De Paula Werneck para João:

"e vejo um garoto com a habilidade de emocionar as pessoas, tocar nos corações dos mais insensíveis dos seres humanos. E, ao fazer isso, é ele quem se machuca mais. Como pode ser que alguém com essa capacidade pode se magoar mais que os outros? É injusto, na verdade, mas também é a vida.
Dar, não para receber, só dar, a coisa mais fácil e difícil que alguém pode fazer. A escapatória, o segredo." Ela disse a ele, "é se conhecer, para que você possa ver os simples prazeres da vida, os verdadeiros. Prazeres que muitos não dão valor no dia-a-dia, pequenas lembranças de quão maravilhoso tudo a nossa volta é e como nada deve ser levado como não importante, até a menor das coisas. Uma formiga carregando uma folha 10 vezes o seu tamanho, ninguém pode entender a magnitude disso, o mais simples e pequeno ato."

Paula Werneck

Em resposta ao que li: Como eu já lhe disse minha adorada! Eu lhe devo um depoimento, mas há palavras em você que ainda não consegui alcançar, como realizar essa troca viva de palavras distantes? Não é fácil criar mundo, embora o teu já esteja criado num tom vermelho escarlate, cor de sangue, denso
como um rio que não pára de correr, campo distante que cresce sobre o céu!
Agradeço sem poder enxergar essa conexão fora do entendimento, como tu mesma me diz!
Te agradeço tanto!


Escrito por joao.xis às 11h29
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KAH-HUM-KAH

 

 

Venho em um grande momento divulgar o trabalho de uma banda nascida em Santo André, interior de São Paulo. Vem toda ela, com suas vozes, instrumentos, seus cantores passam por lugares onde ainda nem entrei. Falo-te música que não tem forma, nem é verso nem poesia. É uma mensagem-melodia, cantada por quem acorda todos os dias para nos mostrar o mundo ainda que não conhecemos. Cada letra expõe um lado do país, e assim vai de uma rua para outra abrir caminhos ao invés de cortar distâncias.

KAH-HUM-KAH ou “Carranca”, ou simplesmente “K”– que em guarani significa “dá licença de entrarmos em uma mesma conversa”. Um grupo de artistas multiculturais que faz da união imediata entre misturalismo e sinestesia um ato social em busca de afeto e consciência ecológica. “Respeita a ti mesmo e assim respeitará teu próximo e cuidará do mundo que vive”. Assim correm as palavras num planeta onde a vida é feita de luxo e sucata.  

Fica para mim a vontade de entrar por trás de cada música e deitar ligeiramente nas palavras, e nelas seus compositores me fazem um convite à vida berrante que vem quebrar as pedras frias de meu silêncio. Escuto mais uma vez, repito as canções que me marcam. Vou correndo ao encontro de mim mesmo. E saio do quarto escuro, livre dos acontecimentos, explosivamente vivo com a força que essa banda nos traz em forma de música, poema, teatro, e tantas e todas as vertentes da arte que eu nem sei mais como dizer ou contar.

Meu gosto é todo preenchido pelo talento que eles produzem na nossa, história, na nossa estrada chamada de existência. Eles me dão um prazer sem tamanho, e não me cabe mais dizer o quanto eles fazem a vida explodir em nós. Só mesmo correndo atrás de seus espetáculos. Pois quem desse espetáculo sorver, para sempre viverá.

 

 João Ximenes

 

http://www.youtube.com/watch?v=IwkHXMGEoo0



Escrito por joao.xis às 14h45
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Entristecer de um Movimento...

 

Vamos então correr, quem sabe caminhar. A corrida é amor ao vento que no corpo sopra e traz um leve frescor de séculos, daqueles que o corpo rezava para si faz tanto tempo. Venha para meu quarto pintado em cinza-escuro, de paredes velhas que cobrem camas, e recados escritos no verso da folha do caderno sem pautas. Se é de tristeza que me falas, então com força vou atravessar um coração sem luz. Ainda estou sem nome para te dar. Algo em mim sente, mas ainda não sei bem o que é. Delgado como uma folha, inexpressivo como o abstrato que nada esconde, pois tudo revela. Dá-me tua mão, venho junto te contar, há tantos mundos que aconteceram comigo. Logo eu, que não sei nem esperar a noite para que meu corpo ganhe sombra com a pouca luz de rua. E logo agora, eu ainda pouco te conheci, e vou viver sem saber nada. Porque o momento do meu sopro é para tentar jogar palavra para fora da boca e forma mensagens. Eu estou tentando sentir o que te enche de lembranças. Tento num assovio livre, só, descontraído, transformar a memória de um dia triste num esquecimento pesado que venha sobrecarregar a angústia, e me deixe levemente ser são, só, e dolorosamente esquecido de tudo quanto for o que às vezes te ataca por inteiro. Então eu paro, penso de olhos mal fechados. Esqueças o mundo inteiro e admita a sua condição de existência. Viva para si, mas busque alguém que te faças esquecer um pouco o quanto se perde e te lembrar mais o quanto tua vida jovem é derrota imediata da infelicidade vencida, que às vezes nem te permite ganhar o espanto de se olhar encantada no espelho e ver o quanto você ainda estás cheia de vida! – Olha-te, é momento agora, não vai durar sempre. Você logo sairá, no imediato instante do entristecer de um movimento...

 

João Ximenes

 

Para Amanda XD

 

-  DE: João Ximenes, em resposta ao texto que me concebeu! – Uma excelente noite às excelentes mulheres como você neste canto achado com vida que damos o nome de mundo!  



Escrito por joao.xis às 01h49
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